quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ser padre um mundo operário

"Em 7 de Outubro de 1954 entrei para o Seminário Menor da Figueira da Foz, ainda não tinha feito os 11 anos. Recordo-me que encontrei um ambiente rigoroso e exigente. Talvez pelo meu temperamento, fui um aluno discreto. Em Outubro de 1959 passei para o Seminário Maior de Coimbra. Aí tive as primeiras dúvidas. Começou o meu interesse pela política, com o caso do Bispo do Porto e o início da guerra colonial.

O Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II no dia 25 de Dezembro de 1961, cuja solene abertura teve lugar em 11 de Outubro de 1962.

Para quem, como eu, que já punha algumas questões sobre se valia a pena ser padre, o Concílio que durou até 8 de Dezembro de 1965, foi uma lufada de ar fresco. De repente éramos livres de sonhar. Tudo era possível e o Mundo, que na nossa formação até aí era a fonte de todos os males, passou a ser a “seara” para onde o Senhor da messe nos enviava.

Diz a Gaudium et Spes: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração”. Assim ganhou novo sentido a minha decisão de ser padre. As aulas eram lugares de descoberta de novos horizontes. Eram muito participadas e nelas começámos a contestar fortemente o ensino tradicionalista: condenatório do mundo, com a sua espiritualidade intimista, em que Maria ocupava o lugar de Jesus. O Concílio veio dar força aos que no Seminário começavam a contestar o regime político. Nisso fomos influenciados pela Revolta Estudantil de 1962.

Começámos, então, a exigir que, antes da ordenação, fizéssemos um Estágio Pastoral para entrarmos no Mundo que nós chamávamos e era o lugar do Reino. Em Junho de 1967 ia terminar o Seminário, mas na Primavera desse ano dá-se um acontecimento que mudou a minha vida. O P. Joseph Bouchaud, Superior Geral dos Filhos da Caridade fez uma conferência no Seminário. Deu-se o “milagre das línguas”. Sabia muito pouco francês, mas entendi tudo. Decidi fazer o meu estágio em França para conhecer o caminho da emigração dos portugueses, fugidos à fome e à guerra, e viver essa experiência em equipa. Foi fácil convencer o Reitor do Seminário que nos ajudou a conseguir a autorização do D. Ernesto, ao tempo Bispo de Coimbra.

Assim a 5 de Outubro de 1967, com dois companheiros do Seminário de Coimbra e um da Guarda, parti para França. Depois de três dias para nos mostrarem Paris fomos à Polícia para tratar do visto de estadia. Foi o primeiro choque. Estava frio e, quando chegámos pelas 6 da manhã, encontrámos uma multidão de várias centenas de emigrantes portugueses. A partir das 8h, começaram a entrar, 100 de cada vez, para um pátio interior. Só depois é que se entrava no edifício, um antiga cavalariça da Polícia. A esmagadora maioria deles vinha do mundo rural e não sabia ler, nem escrever. Para chegarem a França tinham pago, em média, 15 contos. O salário, na região da Beira, era na altura 20$00 por dia.

Depois, foi um mês à procura de trabalho. Gastei as solas dos sapatos de tanto andar a pé. Encontrei emprego numa metalomecânica, na secção de reparação de rolos de máquinas de escrever. Os primeiros tempos foram muito duros. Saía de casa às 5h da manhã e tinha a sensação de que a minha vida, além da 9h de trabalho, era ir e vir da fábrica. Porque o local era barulhento, passava o dia a pensar e a rezar. Descobri assim a condição operária e a sua dureza. Afinal o homem não trabalhava “ para colaborar com Deus na obra da Criação”, mas fazia-o, com o suor do rosto, e era, muitas vezes, explorado e oprimido.

Passados alguns meses, estava eu a encher de lenha a salamandra que aquecia a oficina e de repente pensei: ”a minha vocação é anunciar o Evangelho de Jesus aos trabalhadores, assumindo a condição operária”. Porque percebi que “anunciar a Boa Nova aos pobres” passava por tornar Jesus presente entre esta gente tão explorada e oprimida. Não foi uma decisão ideológica. Foi antes uma consequência da minha fé em Jesus Cristo e na sua afirmação de que “ o sinal de que o Reino de Deus avança é que os pobres são evangelizados”. Tive a felicidade de viver os acontecimentos de Maio de 68, que não foi apenas a Revolta Estudantil, com as suas utopias, mas a paralisação da França com milhões de trabalhadores em greve.

Regressei a Portugal para ser ordenado sacerdote em Setembro de 1968 e por cá permaneci um ano. Regressei a França em 1969 acabando por entrar na Congregação dos Filhos da Caridade para ser Padre Operário. Para quem não saiba, os Padres Operários aparecem em França logo depois da 2ª Guerra Mundial. Havia muitos padres franceses que tinham sido deportados para trabalhar nas fábricas alemãs durante a guerra. Aí descobrem a condição operária. Depois, com o apoio do Cardeal de Paris, muitos pedem para continuar a trabalhar. Assim nascem os Padres Operários. O Vaticano II acaba por confirmar o ministério sacerdotal dos Padre Operários, vivido na sua condição de trabalhadores. Diz o Presbiteryum ordinis nº 8: “Para cooperar na mesma obra, todos os presbíteros são enviados: os que exercem um ministério paroquial ou inter paroquial, como os que se consagram à ciência e ao ensino, como os que trabalham manualmente e partilham a condição operária. Todos visam a edificação do Corpo de Cristo”.

Em 1971 fiz um estágio de formação profissional na área da metalomecânica, como fresador mecânico. Trabalhei depois numa fábrica nos arredores de Paris nesta profissão. Regresso a Portugal nos finais de 1972 e com o Crespo e o Chico Marques formámos uma equipa de Padres Operários de Filhos da Caridade. Fomos viver para a Cova da Piedade. Foi fácil encontrar trabalho. Comecei na Sorefame - Amadora. na altura com mais de 3000 trabalhadores. Depois fui para a Standard Eléctrica em Cascais onde trabalhavam 3200 pessoas. Recebia um bom salário.

Integrei-me na JOC (Juventude Operária Católica), como assistente de uma equipa de base, e comecei de imediato a participar, também, na actividade sindical que nessa altura era semi-clandestina e na luta política dos que contestavam o Regime. Percebi que as coisas iam mudar. Mas temíamos, também, poder um dia sermos presos, até porque a nossa casa era lugar de encontro de activistas sindicais e políticos. Sabíamos que éramos vigiados pela PIDE.

O 25 de Abril apanha-me a trabalhar como fresador na Standard integrado na luta sindical, a partir da qual se conseguiu eleger um Direcção para o Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa. Dela fazia parte, entre outros, Jerónimo de Sousa. Nesse grupo de activistas havia duas tendências: uma defendia a subordinação da luta sindical à luta política e era afecta ao PCP, outra, mais defensora da autonomia sindical, defendia um sindicalismo de base. Naturalmente que me sentia mais próximo desta tendência.

Foram eles que me levaram para o MES ( Movimento de Esquerda Socialista), nos anos loucos do PREC, tempo em que todos os sonhos eram possíveis. Ainda hoje me pergunto como aguentei trabalhar 9 horas por dia e participar em reuniões quase diárias até às quatro da manhã, quando não fazia uma directa. Fiz parte da Direcção Política do MES, mas nunca deixei de trabalhar e recusei ser dirigente sindical. Foram momentos de grande fervor militante em que vinha ao de cima o que de melhor há na natureza humana: a fraternidade e a solidariedade.

A partir de 1978 deixei a actividade partidária e passei a ser apenas Assistente de Religioso de equipas de JOC e LOC. Em Janeiro de 1981 fui trabalhar para a Equimetal, no Barreiro, e passei a fazer parte da equipa de Filhos da Caridade do Lavradio. Além de padre operário, passei a fazer trabalho paroquial, celebrando a Eucaristia, baptizados e casamentos, que preparava, em reuniões, na casa dos pais ou dos noivos.

Passei por uma situação de trabalho muito dura. A certa altura a empresa deixou de pagar atempadamente os salários. Chegámos a ter sete meses em atraso. Vivi situações dramáticas, com colegas a morrerem de ataques cardíacos, a enlouquecer e a suicidarem-se. Empenhei-me na luta contra a fome e a miséria, enquanto membro da Comissão de Trabalhadores e Delegado Sindical. Por exemplo, ocupámos o Pão de Açúcar do Barreiro exigindo que nos fiassem comida como faziam as mercearias de bairro.

Acabei por ser despedido. É minha convicção de que o fui por causa da minha condição de padre operário. Fui trabalhar, depois de alguns meses de desemprego, como fresador para uma fábrica de Setúbal. Em Março de 1990 ingressei como Técnico de Formação de Fresagem e Torneamento no Centro de Formação de Setúbal do IEFP. Por essa altura, e com o dinheiro do Fundo Social Europeu, foram criados vários Centros de Formação Profissional, com equipamento de qualidade e formadores de comprovada experiência profissional a quem era ministrada uma formação pedagógica de seis meses. Havia programas e meios pedagógicos que, aplicados, permitiam ministrar formação de qualidade. Os formandos eram seleccionados com rigor, pois era necessário responder às necessidades do mercado de trabalho. Muitos dos meus formandos ingressaram, de imediato, na Autoeuropa e noutras conceituadas empresas de metalomecânica da região.

Mas a partir de 1998 tudo mudou. Os Centros de Formação passaram a ser um expediente para baixar o número de desempregados. Os principais critérios para a admissão dos formandos, eram que estivessem desempregados ou fossem enviados pelo Instituto de Reinserção Social. A maioria deles já era dependente de drogas ou de subsídios. Quer uns, quer outros, não tinham nenhum interesse pela formação e apenas alguns chegavam ao fim dos cursos.

Assim chego no fim de Janeiro de 2008 à situação de reformado. Tinham passado mais 40 anos desde que em Novembro de 1967 começara a trabalhar. Vivi a condição operária na sua dureza: durante a maior parte do tempo, passando 9h por dia, junto de uma máquina num ambiente barulhento e construindo peças com medidas muito rigorosas. Vivi com camaradas de trabalho que me aceitaram como um deles e de quem fiquei amigo. Encontrei grandes militantes pelas causas da justiça, que o faziam de forma empenhada e generosa. Sofri perante as injustiças e as perseguições tão frequentes nestes meios. Vivi uma militância cristã de presença, vivência hoje tão ignorada, quando não desprezada pelos sectores dominantes da Igreja. Aprendi a rezar durante o trabalho e a fazer as minhas reflexões espirituais ou sobre a condição operária ao barulho da minha fresadora ou do meu torno.

Desde 1992 sou Capelão do Hospital do Outão e, desde Outubro de 2008, Pároco do Faralhão e Praias do Sado, junto à Península da Mitrena, onde está situada a maior produção industrial do País por metro quadrado.

Passados 40 anos, muita coisa mudou: hoje há novas tecnologias e acabou a maioria das grandes empresas. Com os contractos a prazo, os recibos verdes e todas as formas precárias de trabalho, reduziu-se a força dos sindicatos. Hoje a maioria dos trabalhadores está completamente à mercê da sede de lucros dos patrões. O próprio Estado emprega milhares de trabalhadores precários pagos, muitos deles, a recibo verde. E de forma despudorada, há gestores públicos que se servem dos estágios profissionais de licenciados para ter mão-de-obra gratuita, a quem não pagam muitas vezes, nem o transporte, nem o subsídio de refeição. Por isso eu digo, pela experiência vivida, que a única alteração estrutural do mundo do trabalho por conta doutrem nestes quarenta anos, foi no sentido do aprofundamento da exploração do trabalho humano. E isto num país cuja Constituição afirma: “Todos os trabalhadores (…) têm direito: (…) b) À organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização pessoal e a permitir a conciliação da actividade profissional com a vida familiar” (art. 59º/1-b) da Constituição da República Portuguesa).

O capitalismo controla hoje toda a actividade humana. Na sua forma actual, o capitalismo na sua versão financeira, agiota e predadora é um sistema totalitário, pois, apesar de se basear na livre iniciativa, assume-se como o único, não admitindo qualquer outro modelo. Deixou de haver lugar à Social Democracia ou até à Democracia Cristã, mais defensora da propriedade privada, mas vista sempre numa vertente social. É-o também, por outra ordem de razão. A Economia Liberal pretende responder a todas as questões do Homem. Para além da economia, ela pretende ter resposta para as diversas vertentes da vida humana: cultura, desporto, religião, sexualidade, lazer, etc.. Todas estas vertentes são hoje exploradas pelo sistema capitalista. Na Religião, não só produzindo um novo “deus”, o consumismo, como ainda fazendo de muitas seitas religiosa, o chamado “capitalismo religioso”. Assim explora de forma escandalosa o sentimento religioso, sobretudo dos mais pobres e mais desprotegidos.

Perante uma crise, que está a arrastar para a empobrecimento e para a fome milhares de portugueses, a Igreja não prega “a tempo e a fora dele” a Doutrina Social da Igreja. Seria bom lembrar aos políticos, e alguns até se dizem cristãos, que:

“ O homem é o autor, o centro e o fim de toda a vida económica e social” (Gaudium et Spes 63).

“ O primado do homem sobre as coisas na dupla prioridade: do homem sobre o trabalho (Laborem Exercens 6) e do trabalho sobre o capital (Gaudium et Spes 67 e Laborem Exercens12-13).

“O destino universal dos bens (Laborem Exercens18-19, Gaudium et Spes 69 e Centesimus annus 30ss). A justa remuneração do trabalho é o meio concreto de aplicação deste princípio (Laborem Exercens19).

A economia deve estar ao serviço da pessoa toda e de todas as pessoas (Gaudium et Spes 63). “É necessário e urgente educar os consumidores para o uso responsável do seu poder de escolha, a formação de um alto sentido de responsabilidade nos produtores e, sobretudo, nos profissionais de comunicação, além da necessária intervenção das autoridades públicas “. (Centesimus Annus 36).

Por tudo isto, penso que há uma questão teológica, que não sendo nova, é urgente aprofundar. Deus ama preferencialmente os pobres = “os órfãos e as viúvas, os fracos e os oprimidos, os cativos e os imigrantes, etc.), como aparece claro em muitos textos do Antigo e Novo Testamento. Também os Evangelhos, S. Paulo e outros textos do Novo Testamento dizem de uma forma muito clara: Jesus Cristo é o Único mediador entre Deus e os homens. Mas encontrar Jesus, e este encontro é um acto de fé, acontece no: “que tem fome, sede, está nu, preso ou doente”. A Fé Cristã pratica-se no encontro com Deus, na Pessoa de Jesus Cristo, presente nos pobres. Sem este encontro, o Cristianismo será apenas mais uma religião. E as religiões podem não libertar (salvar) os homens, mas antes atá-los a uma crença (religião vem do latim re-ligare). Abandonar o amor preferencial pelos mais pobres é desvirtuar o Evangelho de Jesus.

S. Vicente de Paulo, que tanto influenciou os Católicos Sociais no século XIX diz na sua carta 2546: “Devemos considerá-los (os pobres) antes de mais à luz da fé. O Filho de Deus quis ser pobre e ser representado pelos pobres. Cristo quis nascer pobre, chamar para a sua companhia discípulos pobres, … ao ponto de dizer que o bem ou o mal feito a eles o tomaria como feito a si mesmo… O serviço dos pobres deve ser preferido a todos os outros. Se durante o tempo de oração tiveres de levar ajuda a um pobre, ide tranquilamente. E não tenhais nenhum escrúpulo ou remorso. De facto não se trata de deixar a Deus, … servir um pobre é também servir a Deus”.

Perante a fome a miséria por que passa 1/3 da Humanidade e empobrecimento que atinge cada vez mais gente, nos ditos países ricos, num tempo em que se produzem alimentos suficientes para todos, a defesa dos pobres, dos que são vítimas da violência e da guerra, a defesa da Justiça Social, do primado do homem sobre as coisas, tem de fazer parte da “prática religiosa” , penso eu, do Papa, dos Bispos, dos sacerdotes e dos cristãos leigos. E isto, deve ser obrigatoriamente feito por uma questão de Fé e não, como dizem alguns, por uma questão ideológica.

Luís M. Martins Ferreira
Padre Operário
Capelão Hospitalar e Pároco"

Dados biográficos:
Luís Manuel Martins Ferreira, nasceu a 9 de Novembro de 1943, em S. Martinho da Cortiça – Arganil.
É filho de Maria Isaura Ferreira de Frias e António Martins Pinto.
Concluiu a Teologia na Seminário de Coimbra em 1967. Ordenado sacerdote em 1968. Foi Padre Operário até 31 de Janeiro de 2008. É Capelão do Hospital do Outão desde 1992 e Pároco do Faralhão e Praias do Sado desde Outubro de 2008.

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